quinta-feira, 8 de setembro de 2016

" Um olhar de Infancia"

Ervedeira aldeia que não há muitos anos atrás ainda não tinha electricidade, "da casa da minha avó com a magia da luz do candeeiro a petróleo e da fogueira sempre a crepitar, para ter sempre água quente e para fazer a sopa que demorava horas, mas que até hoje ainda sinto esse sabor que nunca mais encontrei. A grande salgadeira, com o toucinho amarelo que comiamos à fatia e que sabia a eternidade e a matança do porco que era uma festa e que se fazia apenas uma vez por ano, perto do Natal. Bons tempos."
As boas memórias são também coisas nossas, pedaços de nós, que nos completam e edificam.
Aqui posto , uma prosa escrita por o Sr. Rui Tojeira  que a todos nós , nos faz sentir uma nostalgia dos tempos em que fomos crianças e das recordações que ainda hoje permanecem .
"

Grato Retrato de infância na casa da avó Joaquina.
Tenho ainda em mim o jeito de ver e sentir a genuinidade de viver a essência das coisas simples, a gentileza dos gestos e das palavras dedicadas e francas que herdei da aldeia onde nasceu a minha mãe. Todos os caminhos nos conduziam à casa da avó, a última casa lá da aldeia. _ A lagoa transbordava de azuis pelos campos até à eira. O barco do primo Zé Santo, que tantas vezes serviu para a apanha dos limos que utilizavam para adubar as terras, estava sempre lá, parado, a fazer companhia a um outro do lado da casa da guarda, fascinava-me essa imagem que não raras vezes me enchiam os pensamentos de aventuras. Os caniços balanceavam ao vento na melodia trazida no bico das galinhas d’água e o sussurro do recolher da passarada aconchegava-me os sonhos estendidos no chão de junco em frente à casa. No já gasto tanque de pedra, contemplava os pobres dos pequenos achigãs e das pardelhas sarapintadas, que eu apanhava nas margens da lagoa com uma velha bacia de zinco que encontrara perdida na casa do forno. Logo ali, do outro lado do caminho, uma intrigante nora de ferro gemia, numa cadência compassada, que no bucólico gingar dos cabaços cumpria a sua rotina. Enquanto a dócil “cabana”, uma vaca cor de castanho avelã, perdia a conta às voltas que dava em redor do poço a fazer rodar a engrenagem que dava água às regadeiras de entre os milheirais e os feijoeiros. Trago ainda a doce nostalgia desse tempo, que se dava sem pressa nem lamento. Recordo o cheiro inesquecível da comida na lareira, que demorava horas e horas a cozinhar em fogo lento, na mais que queimada panela de ferro de três pés. À noite pela casa, sobressaía o crepitar inebriante da fogueira, num bailado de sombras de fogo, que desafiava as silhuetas encantadas saídas da torcida do candeeiro a petróleo. Por vezes, às fugidas, cortava e fumava uma das pontas da esteira que à pressa acendia no brasido da lareira. Na velha cantareira, o cântaro de barro curvava-se ao prazer da água fresca. Por toda a casa sentia-se o aroma das maçãs, dos peros e dos abrunhos estendidos no chão da pequena adega que dava para a cozinha. O soalho rangia com o peso das tamancas de madeira que a avó não dispensava, a contrastar com a enternecida leveza que trazia sempre no olhar. Ali, longe de tudo, sentia-me livre, tão seguro, tão perto de Deus e do paraíso… Não sei se esses preciosos momentos se atreveriam a ser a melhor das pedagogias, mas hoje tenho a certeza que valiam mais que o jogo mais didáctico, que um carrinho, uma bola, um peão ou qualquer outra brincadeira que não tive. Por isso guardo comigo ainda hoje com uma ternura imensa essas preciosas e tão escassas e longínquas memórias da casa da avó Joaquina, à beirinha da lagoa da Ervedeira.
(Rui Tojeira) "
 

Sr. Rui Tojeira , que desde miúdo tem uma ligação a esse belo recanto que é a pequena aldeia de nome Ervedeira e a sua Lagoa , escrevendo assim sobre as nostálgicas memórias da sua avó e consequentemente da Lagoa da Ervedeira .

Um muito obrigado pelo fabuloso texto que fez questão de partilhar por todos nós .
Um bem haja amigo Rui Tojeira .

1 comentário:

  1. LAGOA DA ERVEDEIRA 1943
    Frequentando a velha escola primária, ali rentinho à Capela, Na hora de saída para o recreio, enquanto as crianças brincavam, dando largas à sua alegria naquela hora de liberdade infantil, eu e mais três matulões como eu, (acho que já todos partiram deste mundo, menos eu,) resolvemos aproveitar a hora de recreio para irmos brincar na lagoa. Fascinados pelo encanto duma pequena barcaça que se encontrava escondida dentro dos caniços,e, sem mais delongas, empurrámo-la para a água e embarcámos nela.
    O impulso que lhe imprimimos em terra levou-a a uns vinte metros para dentro da água. Já todos dentro dela reparámos que se enchia rapidamente de agua e que dentro em poucos minutos se afundaria e as nossas vidas corriam perigo.Entreolhamos-nos apreensivos porque nem tinhamos reparado que não havia remos, e compreendemos que se não fizesse-mos algo urgentemente só nos esperava o fim por afogamento.
    Decidido como sempre fui, nem esperei que alguei o sugerisse; saltei borda fora, vestido como estava, ficando com a minha mão direita agarrada à bordo da barcaça e, com a esquerda fazendo de remo, gritei aos meus três companheiros que me ajudassem a remar com os seus próprios braços,
    Assim, conseguimos arrastar a lancha ate eu encontrar pé tendo depois puxado já com os pés no fundo para mais perto da margem onde ficou submersa.
    Cansados e encharcados, regressámos à escola muito depois da entrada pós recreio. A nossa professora. D. Maria Adelina, Também já falecida há muitos anos,quis saber o o que se passara connosco
    Não havia hipótese de mentir; aí, o castigo bem merecido, ensinou-nos que não devia-mos ter feito aquilo.
    Penso que foi uma boa lição
    Bem haja senhora professora.
    10/09/2016
    jc.

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