quinta-feira, 5 de maio de 2016

Saudades? Realidades ?

Coimbrão antigo (por Edmundo Gomes T. Come) (Saudades? Realidades ? ...Outro Coimbrão se gerou...) Para ler e refletir !

Coimbrão dos antigos areais,
dos modernos pinheirais
concelhios e reais ,
donde há muito desertaram
os teus serradores braçais!
Oh Coimbrão dos valados e levadas,
das debulhas e das eiras
batidas pelos moais !
Oh Coimbrão dos ranchos,das desfolhadas
e das terras sachadas e arrendadas,
das vinhas e milheirais,
dos capachos,das esteiras
e das alegres ceifeiras!
Já não riemos alpendres
das tuas casas caiadas...
Nemjá vejo as cantareiras
de loiça tão carregadas, 
ostentando sempre a Cruz...
Já nem usam limonete
na orelha os conversados...
Já não oiço as «Graças» dadas
nas bodas dos teus noivados...
Que fizeste,oh Coimbrão,
dos canos brancos , de lã,
calçadas desde manhã,
e dos teus alicadores,
das festas e dos andores
e antigos arraiais?
Os folares e as chouriças,
os presuntos e as nabiças
pra quem os guardais Coimbrão?
E a tua broa espoada 
com tanto esmero amassada
e as abóboras porqueiras, 
as pevides bem torradas
e os tremoços das «palhadas»?
Eos teus caminhos d'areia,
que no inverno enlameia?
E as tuas sebes de silvas
carregadinhas d'amoras?
Eos teus cerrados d'outrora
comas suas velhas noras?
Eo teus carros a chiar,
pesados de mato e lenha 
guardada n'alpendurada 
para atear a fogueira 
ao rico tacho d'arame
onde há-de ferver a banha ?
Eo teu campo das cheias
com ruivacos e enguias,
sanguessugas , cotovias,
por entre os teus salgueirais ?
Eas vacas a pastar 
e os porcos a engordar 
e os pastores a brincar ?
E os chocalhos das cabras
no regresso p'los pinhais, 
soandoao entardecer ?
E o Setembro com as uvas,
com os cestos e as tinas 
as dornas e as vindimas,
os mostros e as quartolas ?
E o mostro a ferver
e as adegas a encher?
E os Santos e o Natal ?
Eas matanças e os torresmos,
os presuntos e as morcelas
e a manteiga nas panelas ?
Eos toques dÁve-Marias
rezados com devoção ?
E os homens que as ouviam
e respeitosos ,oravam,
rodando o chapeu na mão ?
Já tanta coisa lá vai!
Já muita quase findou!
Disto tudo o que ficou ?
Saudades? Realidades ?
...Outro Coimbrão se gerou...

" Parte de uma composição poética recitada em festa de estudantes no Salão Paroquial , nas férias de 1962 pelos«Jograis do Coimbrão » : Amílcar João Crespo da Silva Rolo , João Crespo da Silva Rolo , João Manuel Pedrosa Vareiro , Joaquim José Crespo da Silva Rolo , Nuno Alvares Matias Ferreira e Sérgio Manuel Ruivo Crespo )..
Fonte : Jornal " A voz do Domingo " 23/10/1966

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