terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ervedeira



Ervedeira e a sua Lagoa (Lagoa da Ervedeira ) já conhecida no séculoXII no foral de D. Afonso Henriques, atribuído a Leiria
.
  É um local rodeado de pinhais e desenvolveu-se no passado em redor de uma antiga ermida, hoje capela, e desde 1609 S. Tiago é patrono .
 "A ser assim está comprovada, embora com outras referências toponímicas, a antiguidade do povoamento do termo da Bajouca.
Por outro lado a consulta de um outro documento relativo aos limites do couto de Louriçal doado ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em 1166, descreve outros lugares igualmente muito antigos, tais como Carnide, Ervedeira e Fonte Cova. "





Mapa da Ervedeira século XVlll
Documento escrito em latim :
“Et inde contra mare per cimalias de Carnedi quomodo discurrit aqua ad Carnedi inter Cornagaa et ipsum Carnedi, inde ad Fontem Couum, deinde ad lacunam Eruedosam quomodo intrat in pinarium usque ad mare”.

 Note-se que a ocupação humana desta zona marítima é referida numa das mais antigas descrições conhecidas, a narração do cruzado Osberno, em 1147, sobre a Conquista de Lisboa aos Mouros .




Embora correndo o risco de utilizar outros “fitotopónimos”(“derivados de nomes de ervas e plantas”,cf.: E. Santo; 1988; 256), a permanência de certas espécies vegetais concentradas em determinada área, sugerem-nos novas interpretações acerca da vegetação dominante. É o caso de Ervedeira(nome de planta ericácea) .
Pela nossa parte entendemos que este topónimo está de acordo com a interpretação de Vasconcelos (1980.II; 60): “o medronheiro, que em algumas terras se chama érvedo, do latim arbustus, d’onde vieram as palavras Ervedal, Ervedo, Ervedosa,Ervedeira; o medronho, além de servir para d’ele se fazer agua-ardente, é comestível”. 




Esta interpretação é corroborada pelas observações de Arala Pinto (1938.I; 121) acerca da composição da lenhite encontrada no “Pinhal do Rei”  (aconselho a visitar o site) http://opinhaldorei.blogspot.pt  , hoje Pinhal de Leiria, o mais antigo pinhal de Portugal, a Lagoa da Ervideira refresca as matas nacionais,  e na qual se encontram vestígios abundantes desta última espécie.
 Por outro lado é de crer que o povoamento nesta área tenha continuado adesenvolver-se devido não só ao arroteamento de novas terras mas também às actividades de exploração florestal no “Pinhal do Rei” , onde eram recolhidas madeiras para a construção de embarcações utilizadas na empresa dos Descobrimentos
 A leitura dos documentos transcritos por este autor (idem; ibidem) permitem-nos
ainda conhecer as produções dominantes nesta época medieval. Para além da cultura de trigo (de duas qualidades), da vinha e da mata, a riqueza destes habitantes assentava ainda nos pomares de árvores de fruto, principalmente figueiras, macieiras, pesse-gueiros e ameixieiras. Não é referida ainda a cultura do vinho nem da batata, o que abona a favor da sua introdução tardia nesta área em data posterior aos descobrimentos.




Refira-se que a reduzida importância assumida pelo lugar de Monte Redondo na hierarquia dos lugares existentes nessa época não nos surpreende uma vez que, em nosso entender, a sua proeminência assentou na centralidade deste lugar em relação aos povos do Coimbrão e da Ervideira — obrigados a deslocarem-se à Igreja do Souto em dias festivos e no dia do Senhor .



Podemos entender como sinal da maior acessibilidade deste lugar em relação
aos casais vizinhos o facto dos moradores da Ervideira, depois da construção da Igreja
dedicada a N.ª Sr.ª da Piedade, no prazo de Monte Redondo, deixarem de ter a obrigatoriedade de se deslocarem à paróquia próxima de São Miguel ou seja, ao Coimbrão, em substituição da visita obrigatória àquela igreja.



(A população e o povoamento de Leiria do século XII ao XVI Ervedeira já destacada nos censos popolacionais de 1527 )

Não estará assim esta devoção igualmente associada à colonização fenício-cananita da Península Ibérica? Havendo relação, tal facto abona a favor estabelecimento de um clã deste povo próximo do ofito conhecido, na época medieval, por “monte Rotundu” justificando, igualmente, as tradições locais relacionadas não só com os tesouros dos mouros enterrados nesta área ( A lenda da cova da Serpe  )— como o faziam os Cananeus e os Hebreus (idem; ibidem; 222) — mas também com a existência de movimento marítimo junto da lagoa da Ervideira, como algumas tradições orais o defendem.



Lagoa da Ervedeira


De realçar que no limite desta freguesia existia uma ermida, da invocação de S. Tiago na Ervideira, lugar onde havia “uma lagoa que nunca secca; ...e no inverno innunda muito;cria ruivacos: está o mar d’ahi meia légua”  (idem; ibidem)

A este respeito, parece-nos verosímel a interpretação de Cristino (1989; 16) acerca da localização da futura ermida que deveria servir os povos dos Coimbrões, da Ervideira e certamente que também, (embora não referidos), os da Bajouca. Registou aquele autor  “a dificuldade de consenso, por parte dos peticionários para a escolha de um sítio para a  edificação da igreja paroquial”. Dado que “a construção de ermidas em lugares ermos era completamente proibida; e mesmo onde as houvesse, deveriam ser transferidas para os lugares onde houvesse ao menos dez vizinhos...”,pesou certamente na escolha a localização de um lugar central (próximo ou no sitio onde já existia uma pequena ermida) acessível aos habitantes das povoações acima referidas.

 A criação de novas paróquias e o alargamento dos núcleos já existentes garantiu
a construção de novas igrejas e de diversas ermidas e capelas.
Destacamos, a título de exemplo, a construção da Capela da Ervedeira ,de invocação a S.Tiago, em1672.

Eventualmente o templo primitivo terá sido erguido em 1609 (?) e só na década de setenta desse século foi transferido para o local onde hoje se encontra afastando-o, então, da proximidade do mar onde se situava a antiga Ervedeira. Tal facto, abona a favor de uma ocupação humana mais antiga, muito próximo do mar, bem como as transformações sofridas pelos terrenos do litoral à medida que se foram drenando econsolidando as suas dunas.


Quadro V:

ERVEDEIRA e a sua população em 1712
A propósito de Leiria, descreve o Pe. Costa (1712): "tem esta cidade no seu termo 19 paróquias, todas curados, que são as seguintes: S. Miguel do Coimbrão tem a Ermida de Santiago da Ervedeira, duzentos e vinte vizinhos, quinhentos e noventa e seis pessoas mayores e cento e quinze menores; Nª. Senhora da Piedade, de Monte Redondo, tem duzentos e dezasseis vizinhos, quinhentas e sessenta pessoas mayores e cento e sessenta menores. Há nesta freguesia a Ermida de S.Aleixo do Paço e Nª Senhora do Amparo da Sismaria". De acordo
com os dados referidos por Cristino, (1971) a população desta freguesia orçaria em 1657 os 800 habitantes (200 fogos), valor que não deixou de aumentar significativamente no decurso dos anos seguintes
(“Manuscrito”, do Arquivo da Universidade de Coimbra, nº. 503) - Quadro V:





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